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29 de Janeiro: Dia Nacional da Visibilidade Trans(VestiGênere)
Publicado por Ascom Sinasefe - Ter, 07 fev. 2017 08:20

Michele, uma vida de luta, resistência e re-existência

Decidiram celebrar ainda no seguro ventre da sua mãe o seu sexo masculino assomando ao mundo patriarcal, binário, cis, heteronormativo e intertranslesbihomofóbica. Decidiram seu nome, registraram em cartório: João, João Silva, logo mais o Joãozinho e desde sempre Michele. Decidiram seu vestal, seus brinquedos, suas folias, sua diversão. Michele sentia os desencaixes do próprio corpo no mundo predestinado ao João. Decidiram corrigi-la. Decidiram seu destino de desencaixes usurpado pela sua própria família. Decidiram cedo sua vida de açoites, rejeições e vergonhas. No nascimento cravaram seu calvário.

O Brasil é o país que mais

mata travestis e transexuais

no mundo.

Decidiram que Michele seria o avesso da carne, do sexo, da genitália, dos pelos, dos cheiros, das formas. Michele é o avesso do que foi sonhado pela sua família. Carrega as marcas no corpo do sonho do filho homem. Michele se corta, esconde, demarca, limita, apaga os vestígios de um corpo que não reconhece. Se machuca no fel do desespero muito mais do que seu maior agressor: as esquinas.

A expectativa de vida de

uma pessoa trasngênere no

Brasil é de 35 anos.

Decidiram a sua subversão, a sua submissão, os seus poucos papéis outorgados pela sociedade. Decidiram a ausência de amor na sua vida familiar, na sua vida, decidiram a sua ausência de estirpe. Decidiram que Michele não pode neste mundo, decidiram a sua ingratidão. Decidiram a sua existência, resistência e re-existência como patologia. Decidiram que o nome seria agora seu nome social. Michele apontou no mundo como Michele mas sem seus direitos de mulher e cidadã. Decidiram lhe negar o Estado Democrático. Confinaram-lhe os banheiros.

90% das mulheres trans

no Brasil acabam se prostituindo.

Decidiram que os dedos apontados permeariam sua existência. Michele não tem mais medo mas perdeu a vontade de ter coragem. Decidiram a sua automedicação, a automutilação, as injeções de silicone industrial. Decidiram que Michele não seria digna de ser amada, seria apenas objetificada. Cravaram solidão.

Em 2016, 95 travestis,

60 mulheres trans e

22 homens trans foram

assassinadas no Brasil.

Decidiram seu calvário. Última batalha. O nome cravado na lápide: João Silva. Michele não pode existir nem na eternidade. Morre-se uma Michele, enterra-se na estatística um João, mantém-se a sua re-existência.

*Dados da ONG Transgender Europe e da Associação Nacional de Travestis e Transexuais do Brasil – ANTRA.

Texto: Moema Carvalho (Docente do IFB e militante pelos Direitos Humanos).

Ilustração: Kahalia (Artista, Queer, Goiânia-GO).

Última atualização em Ter, 07 fev. 2017 13:55